Geral

13/07/2018 10:37 O dia

René Simões espera que Neymar tire lições da Copa

Dia 15 de setembro de 2010. O Santos vence o Atlético-GO por 4 a 2, na Vila Belmiro, pelo Campeonato Brasileiro, jogo no qual Neymar, irritado por ter sido impedido de cobrar um pênalti, xingou o técnico Dorival Junior e ofendeu o capitão Edu Dracena. Irritado com a postura do camisa 10, René Simões, treinador da equipe goiana, criticou o craque e proferiu a célebre frase: "Estão criando um monstro". Quase oito anos depois, o hoje coach de treinadores acha que contribuiu para a carreira do jogador ao alertar os 'parças' do craque sobre a realidade do futebol, da vida.

O DIA: Em 2010 você se referiu a Neymar com a seguinte frase: 'Estamos criando um monstro'. Esse monstro foi criado?

René Simões: Em qualquer situação é preciso que se tenha o contexto e o fato. Fora disso temos só história. Diante de vários fatos ocorridos e dos incidentes no jogo Santos x Atlético Goianiense, eu era o treinador do Atlético, achei que como educador e pessoa mais velha deveria passar uma mensagem a ele e aos jovens que o tinham e ainda o tem como ídolo: de que a vida é feita de regras de convivência e não de conveniência. Direitos e deveres não podem ser negociados por conta própria. Não tinha nada premeditado e falei de momento. Fui feliz, pois usei a palavra mal-educado desportivamente, excluindo seus pais. Não tenho nenhuma pretensão de que isso tenha sido o causador de alguma mudança, mas foi uma advertência aos que trabalhavam com a carreira do Neymar.

Acha que suas palavras surtiram efeito hoje?

Não houve nada de premonição, nunca as tive e continuo não tendo. E entendo que o momento é outro e não cabe usar essas palavras agora como antes. Hoje, todos somos outras pessoas e não sei dos fatos que o cercam. Só sei o que vi e acho que ele e todo o seu staff precisam refletir intensa e profundamente sobre as decisões tomadas durante a Copa do Mundo.

 

Como você avalia o Mundial do Neymar e toda a polêmica em torno das quedas dele em campo?

"Tu se torna responsável por aquilo que cativas" está escrito no livro 'Pequeno Príncipe'. Acho que ao chamar as faltas e fazer um drama maior do que a realidade, ele puxou tudo isso para si mesmo. Sem querer, claro, ser míope e não reconhecer que, sim, bateram muito nele. Mas os árbitros ficavam entre a verdade e a fantasia. O estilo dele, do drible fácil e jogadas criativas, vai chamar a falta, mas chamar para o confronto físico é outra coisa. Ele precisa entender que não é bom para a imagem dele. Na vida se aprende pelo amor ou pela dor. Está muito dolorido não tenho dúvidas, mas lições deverão ser aprendidas. Ainda há tempo para se tornar o número 1 do mundo.

 

Você também o vê como um "menino", termo usado pelo coordenador da CBF, Edu Gaspar?

Com toda admiração que tenho pelo excelente profissional que é o Edu, lamentei a afirmação dele por várias razões. Primeiro que a gente vive em uma sociedade em que se reclama muito que adultos são imaturos, mas ao mesmo tempo chamamos um homem de 26 anos de menino. Isso me parece um exagero.

 

Na mesma linha do raciocínio de Edu Gaspar, "não é fácil ser Neymar"?

Na perspectiva em que foi colocado está fora do contexto. O Ronaldo antes da Copa de 2002 passou por uma cirurgia que era infinitamente mais séria do que a fratura de um dedo. Ronaldo correu risco não só de não ir à Copa, como ficar inutilizado para o futebol. E nada disso o impediu ou foi uma carga exagerada de sacrifício para ele. Difícil é não ter o que comer, como 85% dos nossos jogadores. Difícil é não saber se amanhã continuará a ser jogador deste ou daquele clube que a cada ano fecham as portas. Difícil é estar com o salário atrasado seis meses e sem perspectiva de receber.

 

A frase usada pelo dirigente não seria para tentar blindar Neymar?

Não é fácil ser aquilo que você não quer ser e que por contingências da vida você tem que ser para sobreviver. Quando você é o que seu sonho o fez ser, não é nada difícil. Embora reconheça que ser figura pública não seja tão fácil. Mas se o somos, foi nosso sonho que nos levou até ali. Devemos nos preparar para o fluxo e o refluxo da maré. Maré alta, tranquilidade e humildade, maré baixa, persistência e resiliência.

 

O que você acha que Neymar precisa fazer para dar a volta por cima e recuperar seu crédito junto à imprensa e aos torcedores?

Pedir ajuda de quem sabe técnicas de comportamento, de autoconhecimento, de empoderamento. Um coaching poderia ajudá-lo tremendamente. Principalmente neste momento de decisão entre Paris Saint-Germain e Real Madrid. Eu o aconselharia a fazer uma técnica chamada modelo-modelagem: pegue os modelos de jogadores que foram eleitos número 1 do mundo e veja o que fizeram e fazem em seu comportamento dentro e fora do campo. Veja o que gosta e siga-os fazendo a modelagem. Neste caso específico veja se Ronaldo, Ronaldinho, Kaká, Cristiano, Messi, Figo e outros ficaram só um ano em algum clube. Se algum deles ficou e foi eleito o melhor do Mundo. Modele, copie. Se não mudaram de clube um ano após chegar, talvez não seja uma boa modelagem.

 

'TITE SENTIU O PESO DE UMA COPA'

Para Renê, Tite sucumbiu à pressão de sua estreia em uma Copa e o desempenho do Brasil foi frustrante. Nada, porém, que não possa ser corrigido pelo técnico até o Mundial do Catar, em 2022. "Tite sentiu o peso. Avaliou que o trabalho feito antes podia ser igual na Copa. Eu passei por isso no Mundial da França em 98 com a Jamaica. Aprendi pela dor. Faltou um psicologo na delegação. O técnico tem muito o que fazer em sua área específica e os cuidados individuais em outras áreas não se consegue fazer", frisa.

"Depois de 2014 nossa autoestima estava baixa. A performance na Eliminatória e nos amistosos nos deixou animados. Mas, já no primeiro jogo, virou preocupação. A Seleção não tinha sofrido na era Tite e isso ficou nítido quando sofreu contra Suíça e Costa Rica. Mas o resgate para a próxima Copa foi feito e tem que continuar", completou.


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